Metodologia

Como o Orbe distingue fontes, certezas e limites

Cada memória deve indicar de onde vem, o que sabemos com segurança e o que continua em debate.

Simplificar a experiência sem empobrecer a verdade.
Dois eixos de certeza 6 tipos de fonte 5 princípios editoriais
← Voltar à página principal

Princípio central

O Orbe da Memória é um atlas interactivo, não uma enciclopédia académica. Mas simplificar não é o mesmo que esconder. Quando uma data é incerta, quando uma figura pertence à tradição oral e não a fontes documentais, quando um debate existe entre historiadores — isso deve ser visível.

O objectivo não é dar respostas definitivas. É dar ao utilizador a informação suficiente para distinguir o que sabemos, o que supomos e o que continua em aberto.

O que o Orbe classifica

Em vez de anunciar «um número de graus», o Orbe distingue dois eixos, porque respondem a perguntas diferentes: um diz como sabemos, o outro diz quando. Fundi-los apagaria a distinção que o atlas existe para fazer.

Grau da fonte — «como sabemos»

Quão sustentada é a afirmação. Palavra e símbolo, sempre — a cor só reforça a família.

facto documentado

A fonte coeva e dura sustenta directamente

Evento, data ou atribuição confirmada por fonte primária coeva ou consenso académico consolidado. Exemplo: a chegada de Vasco da Gama a Calecute em 1498.

atribuído

A fonte atribui, sem o fechar em prova dura

Uma fonte atribui o facto, mas sem a firmeza da prova coeva directa. Exemplo: o papel de aio de Egas Moniz, ou a menagem de Guimarães.

tradição

Vem da tradição, não do documento coevo

Narrativa recebida por tradição oral, recolhas populares ou historiografia tardia, sem verificação documental coeva.

em conflito

As fontes divergem — as posições, não a arbitragem

Quando as fontes apresentam leituras diferentes do mesmo facto. O Orbe apresenta as posições, não escolhe nem arbitra por contagem. (Rótulo do sistema: «em conflito», nunca «debate» — para não colidir com a data «discutida».)

reconstrução

Reconstruída a partir de indícios

Leitura reconstituída a partir de indícios, não leitura directa da fonte. Sinalizada como tal, nunca como facto.

candidato — à parte, não é grau do público. Estado pré-publicação, proposto e à espera do cotejo humano. O que é candidato não vai ao ar; o visitante nunca o vê numa ficha.

Precisão da data — «quando»

Quão firme é a data, num eixo separado do grau da fonte.

Data exacta

Documentada e consensual

Ano, mês ou dia sustentado por crónicas, tratados ou registos oficiais. Apresentada sem ressalva.

Data aproximada

Estimada, sem disputa significativa

As fontes indicam apenas um intervalo ou uma estimativa. Sinalizada com «c.» (circa) ou intervalo explícito.

Data discutida

Os historiadores divergem sobre a data

A data em si é objecto de divergência. Distinta do grau em conflito — que é sobre o facto, não sobre a data.

Porque são dois eixos e não um: uma fonte pode datar com precisão um facto cuja certeza é só tradição ; e um facto documentado pode ter data discutida. É por os separarmos que a data «discutida» nunca se confunde com o grau «em conflito» .

A certeza da coordenada — «onde, ao certo»

Uma terceira coisa, à parte do grau e da data: quão auditado está o ponto no mapa.

As coordenadas têm estado próprio: candidata ou auditada. Quando ainda não foram auditadas contra fonte, são assinaladas como tal — o marcador no mapa mostra-o (candidata a ouro, auditada a verde). Nunca se finge uma precisão que a auditoria ainda não fechou.

A imagem tratada como fonte

A imagem serve-se com a mesma disciplina da prova: a origem à vista, a licença explícita, a ausência honesta quando nenhuma passa.

A fonte é quem detém ou produziu a imagem (a instituição, o arquivo, o autor) — nunca o repository (o alojador técnico, como a Wikimedia ou a NASA), que se nomeia à parte. A licença é sempre explícita. Se nenhuma imagem passa a régia — sem detentor identificado ou sem licença aberta — mostra-se a ausência honesta, nunca uma imagem sem proveniência nem uma reconstrução tratada como documento.

Tipos de fonte

O Orbe distingue a natureza de cada fonte para que o utilizador saiba o peso do que está a ler.

Fontes primárias

Crónicas, cartas régias, tratados, roteiros de navegação, registos oficiais e documentos de época.

Bibliografia académica

Estudos, monografias, artigos e teses publicados por investigadores e instituições de referência.

Fontes institucionais

Documentação de arquivos nacionais, museus, bibliotecas públicas e organismos culturais.

Recolhas etnográficas

Registos de tradições, rituais, contos e práticas populares recolhidos por etnógrafos e folcloristas.

Tradição oral

Narrativas transmitidas de geração em geração, sem registo escrito contemporâneo. Tratadas como memória cultural, não como documento histórico.

Historiografia posterior

Relatos escritos décadas ou séculos depois dos eventos. Úteis como contexto, mas com distância temporal que exige cautela.

As três taxonomias encaixam numa árvore

O grau da fonte, os seis tipos de fonte e os quatro níveis das Mouras Encantadas encaixam uns nos outros: o tipo de fonte alimenta o grau, e os níveis das Mouras são ramos de dentro da tradição.

O tipo de fonte alimenta o grau, sem competir com ele. O tipo diz de onde vem a prova; o grau diz quão firme ela sustenta a afirmação. Uma fonte etnográfica ou de tradição oral sustenta, quase sempre, um grau tradição ; uma fonte primária coeva sustenta documentado .
Os quatro níveis das Mouras Encantadas são subtipos de tradição — graus de dentro da lenda, aninhados sob ela:
  • Tradição oral — entidade sobrenatural sem âncora histórica.
  • Com âncora histórica — contexto real, personagens não verificáveis.
  • Lenda historicizante — narrada como história, sem verificação documental.
  • Memória arqueológica — sítio real revestido de tradição oral.

Certeza e incerteza

O Orbe não esconde o que não sabe. Sinaliza graus de confiança para que o utilizador decida por si.

Cada narrativa, data ou atribuição no Orbe está associada a um grau de certeza. Em vez de apresentar tudo com a mesma autoridade, o atlas distingue aquilo que está documentado daquilo que é atribuído, pertence à tradição, ou está em conflito entre fontes.

Esta distinção não pretende ser um juízo de valor. Uma tradição oral pode ser culturalmente mais rica do que um facto isolado. Mas o utilizador tem o direito de saber se está a ler um dado sustentado por fontes primárias ou uma narrativa transmitida ao longo de séculos sem registo documental independente.

A incerteza, quando existe, é assinalada. Datas aproximadas são marcadas com «c.» ou com intervalos. Quando as fontes divergem — o grau «em conflito» — o Orbe apresenta as posições, sem forçar uma conclusão única. A reconstrução é sempre sinalizada como tal, para não se confundir com leitura directa da fonte.

Reconstrução visual

Uma imagem pode parecer uma prova. No Orbe, não é.

O Orbe pode incluir ilustrações, cenas ou representações visuais de momentos históricos, paisagens ou figuras do passado. Estas imagens são sempre reconstruções — não são fotografias, não são fontes primárias, não são provas documentais.

Cada reconstrução visual deve basear-se em fontes identificadas, contexto histórico verificável e prudência interpretativa. Quando uma cena representa algo que nenhuma fonte descreve com exactidão, isso deve ser claro.

A beleza de uma imagem não deve criar uma falsa impressão de certeza. Uma ilustração elegante de um porto medieval não prova que o porto era exactamente assim. O Orbe sinaliza estas representações como reconstruções, distinguindo-as dos factos documentados.

Tradição oral e lendas

Memória cultural tratada como tal — nunca confundida com facto documentado.

O Orbe inclui colecções dedicadas à tradição oral portuguesa. Lendas, narrativas populares e memórias transmitidas de geração em geração fazem parte da geografia cultural do país. Mas o Orbe não as trata como história factual nem como ficção pura.

Distingue camadas de certeza e admite incerteza onde ela existe. Uma lenda sobre uma moura encantada não é um facto histórico. Mas é uma memória cultural com raízes profundas, recolhida por etnógrafos, e merece ser cartografada com o mesmo rigor com que se localiza uma fortaleza documentada.

Exemplo aplicado: Mouras Encantadas

Na colecção Mouras Encantadas, cada narrativa recebe uma de quatro classificações:

  • Tradição oral pura Entidade sobrenatural sem âncora histórica.
  • Com âncora histórica Contexto real, personagens não verificáveis.
  • Lenda historicizante Narrada como história, sem verificação documental.
  • Memória arqueológica Sítio real revestido de tradição oral.
Explorar a colecção Mouras Encantadas →

O que o Orbe evita

Cinco compromissos editoriais que orientam todas as decisões do atlas.

Continua a explorar

Agora que conheces o método, podes explorar o atlas.