FIGURA
Egas Moniz
Rico-homem dos Ribadouro e mordomo-mor de Afonso Henriques. A tradição fez dele o modelo da lealdade, com o episódio da corda ao pescoço em Toledo — mas esse episódio é uma lenda, e o que os documentos mostram é a figura poderosa da corte do primeiro rei.
Egas Moniz (c. 1080–1146) foi um rico-homem da linhagem dos Ribadouro e uma das figuras mais poderosas da corte de Afonso Henriques. Os documentos de chancelaria mostram-no como mordomo-mor — o cargo mais alto junto do rei — entre 1136 e 1146. Morreu a 3 de Agosto de 1146 e foi sepultado no Mosteiro de Paço de Sousa, que dotou por testamento.
A tradição, porém, guardou dele outra coisa. Chamou-lhe «o Aio», atribuindo-lhe o papel de educador do jovem Afonso Henriques — um papel que assenta na tradição nobiliária, não em documento coevo. E fez dele o modelo português da lealdade, através do episódio da corda ao pescoço: Egas ter-se-ia oferecido, com a mulher e os filhos, ao imperador Afonso VII de Leão, de corda ao pescoço, para pagar com a vida a promessa de vassalagem que dera por Afonso Henriques e que este não cumpriu.
Esse episódio é uma lenda. Não é sustentado por nenhum documento da época, e teve origem numa gesta trovadoresca — um cantar de exaltação da linhagem, atribuído por José Mattoso ao trovador João Soares Coelho, ele próprio descendente de Egas. A matéria foi posta por escrito no Livro de Linhagens do Conde D. Pedro, no século XIV, e entrou na cronística pela Crónica Geral de Espanha de 1344. Até a própria menagem — a promessa solene de que Egas seria fiador — é contestada por parte da historiografia, que duvida de que tal compromisso tenha existido.
A lenda ficou esculpida na pedra: o túmulo de Paço de Sousa mostra Egas a caminho de Toledo, de corda ao pescoço, e a família atrás dele. Mas esses baixos-relevos são posteriores — mandados fazer no século XIII, no tempo de Afonso III, mais de cem anos após a morte de Egas. A pedra conta a lenda e diz-nos quando ela já era contada; não prova que a corda tenha acontecido.
O que sabemos, e com que certeza
Cada afirmação com o seu grau de certeza e a fonte que a sustenta, ao fólio.
O episódio de Egas Moniz que vai a Toledo com a família, de corda ao pescoço, oferecer a vida a Afonso VII por não ter cumprido a palavra dada, é uma construção literária de intenção laudatória: tem origem numa gesta trovadoresca (atribuída por Mattoso a João Soares Coelho, trovador descendente de Egas), foi posta por escrito no Livro de Linhagens do Conde D. Pedro (séc. XIV) e entrou na cronística pela Crónica Geral de Espanha de 1344; nenhum documento coevo a sustenta.
A tradição atribui a Egas Moniz o papel de fiador da promessa de vassalagem de Afonso Henriques a Afonso VII durante o cerco de Guimarães (c.1127); o episódio não está fixado em documento coevo e parte da historiografia contesta que tal promessa solene tenha sequer existido.
Egas Moniz foi mordomo-mor da corte de Afonso Henriques — o cargo mais alto junto do rei — entre 1136 e 1146; a tradição di-lo sucessor do irmão Ermígio Moniz no cargo.
Egas Moniz é conhecido por «o Aio», cognome que a tradição nobiliária liga ao seu papel de educador e conselheiro do infante Afonso Henriques; o papel assenta na tradição, não em documento coevo que o descreva.
A última notícia de Egas Moniz em vida é de 1 de Setembro de 1145, ainda como mordomo; a data da morte (3 de Agosto de 1146) deduz-se da inscrição tumular combinada com o necrológio do Mosteiro de Salzedas. Foi sepultado no Mosteiro de Paço de Sousa, que dotou por testamento. Os baixos-relevos do túmulo que representam a ida a Toledo de corda ao pescoço são posteriores — mandados fazer no século XIII, no tempo de Afonso III —, pelo que a pedra conta a lenda e data-a, não a comprova.
Fontes
- Livro de Linhagens do Conde D. Pedro (nobiliário, séc. XIV) — ed. crítica José Mattoso, in Portugaliae Monumenta Historica, Nova Série, vol. II; a matéria da gesta de Egas posta por escrito na genealogia laudatória Ver documento original →
- José Mattoso, «João Soares Coelho e a Gesta de Egas Moniz» (Boletim de Filologia XXVIII, 1983, in Homenagem a Manuel Rodrigues Lapa, vol. I) — estudo que identifica a origem trovadoresca da lenda e a atribui a João Soares Coelho, descendente de Egas; cf. Crónica Geral de Espanha de 1344, ed. crítica Luís Filipe Lindley Cintra, que defende a gesta subjacente fólio por localizar
- Tradição nobiliária medieval (Livros de Linhagens) sobre o papel de aio e a menagem de Egas Moniz; matéria contestada por parte da historiografia moderna — cf. José Mattoso, «D. Afonso Henriques» (2007) Ver documento original →
- Documentação de chancelaria do reinado de Afonso Henriques que regista Egas Moniz como mordomo-mor (c.1134-1145) — referência a cotejar à letra no diploma; hoje sustentada por síntese historiográfica, diploma por ver fólio por localizar
- Inscrição tumular de Egas Moniz (Mosteiro de Paço de Sousa) + necrológio do Mosteiro de Salzedas, combinados para a data da morte; datação dos baixos-relevos no séc. XIII (tempo de Afonso III) — fonte crítica a cotejar: Mário Barroca, «Epigrafia Medieval Portuguesa 862-1422» (tese, U. Porto, 2000) Ver documento original →
- «Dom Egas Moniz de Riba Douro, o Aio entre o mito e a realidade» (estudo, Universidade do Porto, acesso aberto) — assenta em José Mattoso (1981) e em Amaral/Barroca (2012); regista o cargo de mordomo-mor de D. Afonso Henriques entre 1136 e 1146 e liga a morte de 1146 à epígrafe funerária Ver documento original →