FIGURA
D. Afonso Henriques
Primeiro rei de Portugal. Venceu em São Mamede, em 1128, e assumiu o governo do Condado Portucalense; a soberania do reino só foi reconhecida pela Santa Sé em 1179, pela bula Manifestis Probatum.
D. Afonso Henriques (c. 1109–1185) foi o primeiro rei de Portugal. A 24 de Junho de 1128, na batalha de São Mamede, junto a Guimarães, venceu as forças ligadas à mãe, D. Teresa, e a Fernão Peres de Trava, e assumiu o governo do Condado Portucalense.
Afirmou-se depois contra o poder muçulmano do sul. A batalha de Ourique, em 1139, está registada pelas fontes do século XII, que a dão como uma vitória sobre um chefe muçulmano — mas nada dizem de qualquer milagre. Foi por esses anos, ligado a esta vitória, que Afonso começou a intitular-se rei. A aparição de Cristo que a tradição situa na véspera veio bem mais tarde: ganhou forma escrita no século XV e foi levada ao papa em 1485. É justamente porque as fontes que viveram perto da batalha se calam quanto à aparição que se percebe que o milagre lhe foi colado depois — a vitória sustenta-se nos documentos; a lenda é o que se lhe acrescentou três séculos mais tarde.
Em Outubro de 1143 houve um encontro em Zamora com o primo Afonso VII de Leão, na presença do legado papal. Do que ali se passou, os documentos coevos falam apenas de um colóquio. O «Tratado de Zamora» que a tradição diz ter reconhecido a independência é uma construção do século XIX: nenhuma fonte da época menciona qualquer tratado ou reconhecimento. A soberania do reino só viria a ser reconhecida pela Santa Sé a 23 de Maio de 1179, pela bula Manifestis Probatum do papa Alexandre III.
A seu lado esteve Egas Moniz, seu mordomo-mor, figura documentada — a quem a tradição juntou o papel de aio e o episódio da corda ao pescoço em Toledo, lenda posterior. D. Afonso Henriques morreu a 6 de Dezembro de 1185, em Coimbra, e foi sepultado no Mosteiro de Santa Cruz.
O que sabemos, e com que certeza
Cada afirmação com o seu grau de certeza e a fonte que a sustenta, ao fólio.
A soberania de Portugal e o título de rei de D. Afonso Henriques foram reconhecidos pela Santa Sé a 23 de Maio de 1179, pela bula Manifestis Probatum do Papa Alexandre III.
A 24 de Junho de 1128, na batalha de São Mamede, junto a Guimarães, D. Afonso Henriques venceu as forças ligadas à mãe, D. Teresa, e a Fernão Peres de Trava, e assumiu o governo do Condado Portucalense.
D. Afonso Henriques morreu a 6 de Dezembro de 1185, em Coimbra, e foi sepultado no Mosteiro de Santa Cruz.
A 25 de Julho de 1139, D. Afonso Henriques venceu forças muçulmanas na batalha de Ourique; a identificação exacta do inimigo (almorávidas, taifas ou outros), o local e a dimensão do confronto permanecem disputados entre as fontes.
Em 4-5 de Outubro de 1143 houve um encontro em Zamora entre Afonso Henriques e o primo Afonso VII de Leão, na presença do legado papal Guido de Vico. As duas cartas coevas da chancelaria leonesa falam de um «colóquio»; as cláusulas exactas são desconhecidas, e nenhum documento da época regista qualquer reconhecimento de soberania. Afonso Henriques já se intitulava rei desde cerca de 1139-1140, ligado à vitória de Ourique, e não a partir deste encontro.
A aparição de Cristo a Afonso Henriques na véspera de Ourique é uma construção tardia: ausente das fontes coevas do século XII, ganha forma escrita no início do século XV (Crónica de 1419) e é veiculada ao papa Inocêncio VIII em 1485, na Oração de Obediência de Vasco Fernandes de Lucena — três séculos depois da batalha.
O «Tratado de Zamora» que teria reconhecido a independência de Portugal é construção historiográfica do século XIX, iniciada por Alexandre Herculano a partir de duas cartas leonesas de 1143 onde Afonso é chamado «rei» — mas onde se fala de «colóquio», não de tratado; nenhum documento coevo das chancelarias ou da Santa Sé menciona qualquer tratado.
Fontes
- Bula «Manifestis Probatum», Papa Alexandre III, 23 de Maio de 1179 — ANTT, Bulas, mç. 16, n.º 20 (cota PT/TT/BUL/0016/20) Ver documento original →
- Annales domni Alfonsi Portugallensium regis (c.1185), testemunho da Chronica Gothorum — ed. Monica Blöcker-Walter (1966); ed. port. «Anais de D. Afonso, rei dos portugueses», col. Fontes narrativas para o estudo de D. Afonso Henriques Ver documento original →
- Oração de Obediência de Vasco Fernandes de Lucena a Inocêncio VIII, 11 de Dezembro de 1485 — ed. Francis M. Rogers, «The Obedience of a King of Portugal», University of Minnesota Press, 1958; ed. Martim de Albuquerque, «Orações de Obediência», Inapa, 1988 fólio por localizar
- Duas cartas da chancelaria de Afonso VII (a Martin Cidez e a Pons de Cabrera), 4-5 de Outubro de 1143, redigidas em Zamora — primeira menção de Afonso Henriques como «rei de Portugal» pela chancelaria leonesa; ed. crítica em A. Dinis (1962) e J. Mattoso, «D. Afonso Henriques» (2007) fólio por localizar
- Crónica de 1419 / Crónica de El-Rei D. Afonso Henriques (Duarte Galvão), primeira forma escrita da lenda — ed. IN-CM, 1986, apresentação de José Mattoso; núcleo em Portugaliae Monumenta Historica, Scriptores I (Herculano, 1856), p.25 fólio por localizar
- Carta «Claves Regni Celorum» de D. Afonso Henriques à Santa Sé, 13 de Dezembro de 1143 — Arquivo Distrital de Braga, cota PT/ADB/DIO/GAVARCAZ/GAVNOTV-2 (peça coeva do processo diplomático de 1143) fólio por localizar